sábado, 3 de abril de 2010

O Esporte Brasileiro

O Brasil e a bola
O vôlei é um jogo de paciência, o basquete de emoção. O futebol soma ambas as coisas e muito mais. Transforma o perna-de-pau em gênio, mesmo que seja por um segundo, engrandece os fisicamente imperfeitos. Lá vai Garrincha! Não discrimina os baixinhos. Romário mede 1,68 m e pode fazer com que 11 troncos de madeira derrotem 11 artistas da bola. Talvez seja esta a explicação para a paixão do brasileiro pelo esporte mais fácil de praticar e mais popular, do Oiapoque ao Chuí.
Com duas pedras ou pedaços de madeira se improvisa um gol. Com papel amassado se faz uma bola, depois do par ou ímpar o time é escolhido e se desencadeia a magia: começa o jogo. Jogo que reúne negros, brancos, magros, gordos, altos, baixos, mancos, tortos, pobres e milionários, orgulhosos e despojados. Atrás de uma bola vão todos, e o coração de qualquer brasileiro bate mais rápido quando aquele objeto esférico roda em um campo de terra, asfalto, grama, areia, pedregulho ou barro.
Tanta paixão reflete-se nas discussões de esquina. O futebol sempre esteve incluído no menu das segundas-feiras. Não existe nada melhor que pegar o jornal e ler todos os detalhes da vitória de seu time. Depois dos gols do dia, finalmente as investidas do vizinho de mesa no trabalho. No auge da provocação, chega-se ao cúmulo de ir com a camiseta do time somente para provocar o derrotado da véspera.
A paixão nacional pelo futebol vive seu auge a cada quatro anos, quando os olhos e corações comem e dormem com a Copa do Mundo. Postal do Rio de Janeiro, o Maracanã foi construído pelo prefeito Mendes de Morais para ser sede da Copa de 1950. Era o primeiro Mundial depois da Segunda Guerra Mundial, o que gerou a expectativa do mundo. O orgulho nacional sentiu-se tocado e a intenção era fazer uma festa bárbara, daquelas que todos comentam no dia seguinte, e da qual nós seríamos os donos.
A cada partida a paixão brasileira se exacerbava. Nos bondes e cafés - muito freqüentes àquela época - não havia outro tema que as exibições do time de Barbosa, Juvenal, Ademir de Menezes e Zizinho, a quem chamavam mestre, pela intimidade e pelo carinho com que tratava a bola. Porém como toda a paixão, o futebol também maltrata. Há que se sofrer, e muitas vezes a dor é muito maior que o prazer. Foi o que aconteceu naquela tarde de 16 de julho. Duzentas mil pessoas chegaram ao Maracanã e voltaram para casa silenciosas, chorosas, recordando os gols perdidos, com vontade de parar o relógio, lamentando-se por não haver entrado em campo quando o uruguaio Gighia chutou e marcou o gol da vitória por dois a um para a seleção de seu país. Todos morreram naquela final, menos a paixão pelo futebol. O coração brasileiro vestiu o luto, adormecido e inerte. A paixão permaneceu viva, manifestando-se timidamente. Havia sido traída pelo destino. E o perdão à traição às vezes é lento, às vezes não chega. Porém, o amor nacional pela bola rolando - onze contra onze, descalços, com chinelos, chuteiras, botas, também servem os sapatos - supera qualquer decepção, transcende aos desgostos, às armadilhas, ao imponderável.
Com o orgulho ferido - afinal de contas, a reboque da paixão vem o ar de superioridade, a convicção de ser imbatível - o brasileiro foi aos poucos recuperando a energia. Maior que a frustração era o amor. E os anos 50 não foram totalmente decepcionantes. Embora Gighia tivesse nocauteado o orgulho brasileiro, dois personagens, ainda garotos, se mantinham em pé, alheios ao golpe dado pelo atacante uruguaio. Em Três Corações, Minas Gerais, o garoto Edson Arantes do Nascimento tinha apenas oito anos. Não sabia o que o destino lhe reservava. Em Pau Grande, no interior do estado do Rio de Janeiro, Manuel Francisco dos Santos, seguramente passou a tarde pescando e nem se preocupou com o resultado da partida nem com o terremoto que ela provocou.
Oito anos depois, Edson Arantes do Nascimento já era conhecido como Pelé, e a Manoel todos o chamavam somente Garrincha. Vestiam a camisa verde e amarela da seleção brasileira. Já não eram tão garotos – Pelé tinha dezesseis anos – e talvez nem imaginassem que seriam os condutores do resgate do orgulho perdido. Foram eles os principais responsáveis pela conquista do primeiro título mundial, a Copa do Mundo da Suécia. Pernas tortas, ar de quem não se importa com o mundo, Garrincha colocou na roda marcadores das mais distintas nacionalidades: galeses, ingleses, austríacos e suecos. Todos saíram do campo com dores na coluna vertebral. Garrincha ameaçava pela direita e saía pela esquerda. Não havia cintura que resistisse. E Pelé? O que escrever sobre um garoto que driblava com a mesma facilidade com que se chupa um picolé.
Foram eles – anônimos em 50 – que fizeram com que os brasileiros não se esquecessem daquela Copa. Com dribles, toques e arranques mostraram que valia a pena sentir paixão pelo futebol. Foram eles, comandados por um príncipe chamado Didi – apelido de duas sílabas e futebol que não cabe no espaço ocupado por todos os alfabetos do mundo – que devolveram o sorriso aos corações brasileiros. Acabou-se o luto. Fim da tristeza. O primeiro título nos colocou na elite do futebol mundial. O que o Uruguai, em 34 e em 50, Itália, em 38, e Alemanha, em 54, haviam conseguido, nós também alcançamos. Outras conquistas eram apenas uma questão de tempo. E não muito. Quatro anos depois – mais com Garrincha do que com Pelé, que se machucou – o feito se repetiu. No Chile, Garrincha não se cansou de desorientar quem aparecesse pela frente. O que era paixão se transformou também em obrigação nacional. Ser amigo de um jogador de futebol passou a ser chique. Converteram-se nos astros das festas, presença obrigatória em qualquer evento que precisasse de divulgação.
(...) na Inglaterra, abalou o status do futebol. Já estava sedimentado e quatro anos depois, em 70, no México, uma vez mais foi também carnaval no meio do ano. Já não estava Garrincha, mas Pelé ainda jogava, acompanhado por Tostão, Jairzinho, Rivelino, Gérson e Carlos Alberto Torres. Era o terceiro título mundial, o que ninguém havia conseguido até então. Os anos setenta foram responsáveis pelo começo de um largo jejum brasileiro. Nada que mudasse a paixão pelo esporte. Muito pelo contrário, o futebol foi se sofisticando e passou a ter uma cobertura jamais vista, das emissoras de televisão. Globalizou-se muito antes de virar moda.
Nas partidas da seleção brasileira, o cenário passou a ser o mesmo. Diante da televisão, que pode estar no lugar mais nobre da casa ou na estante de um bar, os torcedores se reuniam para sofrer, gritar, insultar, chorar, aplaudir e discutir. No final das contas, é o que mais gosta de fazer o brasileiro quando o assunto é futebol. Ninguém chega a um consenso. Ronaldinho será melhor que Pelé? Tostão jogou mais que Zico? Zagalo é apenas um técnico com sorte? O acordo em discussões sobre futebol não existe para o torcedor brasileiro. O que para alguns é ótimo, para outros é razoável ou lamentável.
A Copa de 94, nos Estados Unidos, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato mundial – feito até o momento não alcançado por nenhuma outra seleção – é a maior prova disto. Reúna um grupo de brasileiros e comece uma discussão tendo como tema o último Mundial. Alguns defenderão Carlos Alberto Parreira, técnico pragmático, mais preocupado com a eficiência que com o espetáculo. Outros não apenas defenderão Parreira como também seu estilo – pouco brasileiro, é certo – adotado naquela Copa.
É assim como se dá a paixão pelo futebol. De desacordos. Estar de acordo, impossível. Dizem que no Brasil todos são técnicos de futebol. É errado. Além de técnicos, todos são jogadores, dirigentes e árbitros. Conhecem táticas, jogadas, formas de organizar um compeonato e regras de como arbitrar uma partida. A paixão é isso. Se um brasileiro não entra nessa discussão, está mal da cabeça ou doente do pé. Afinal de contas, o País – queiram ou não - é do futebol e nunca deixará de sê-lo. A cada momento nasce um craque, um dirigente, um técnico e um juiz. É uma paixão eterna.

Fórmula 1: Um novo talento brasileiro
Mário Silva

Dizem que os americanos vão produzir um filme sobre a vida de Ayrton Senna. O espanhol Antonio Banderas seria o eleito para o papel principal. Al Pacino encarnaria o francês Alain Proust, rival de Senna e da torcida que funciona com gasolina especial. Antes que os estúdios de Hollywood, sem qualquer experiência na F1 moderna, cometam erros de interpretação, derrapem em detalhes vitais para a compreensão do fenômeno Senna, é melhor prestar desde agora um auxílio aos americanos. De Hollywood, o que se espera é um show de efeitos especiais com carros mais parecidos com aviões militares do que com a realidade. Um cenário inesquecível também é um requisito básico. O que segue é a nossa primeira sugestão: construir um cenário no estilo de Steven Spielberg no qual o principado de Mônaco seja reproduzido em todos os seus detalhes. Três momentos definitivos na carreira e na história de Ayrton Senna ocorreram nas ruas de Monte Carlo, templo da F1, da sofisticação européia e do culto a Senna.
A primeira vez em que o mundo percebeu nele um piloto capaz de mudar a história da F1 foi em 3 de junho de 1984. Para gravar esta cena o pessoal de Hollywood terá que reproduzir uma chuva memorável. Um dilúvio capaz de lavar todas as tradições de Mônaco da F1. Ayrton fazia sua sexta corrida na categoria mais importante do automobilismo. Era uma ator promissor no universo comandado por Niki Lauda, Nelson Piquet, Alain Proust e Keke Rosberg. Conduzia um carro branco da equipe Toleman, máquina de segunda categoria. Pouca gente fora do Brasil conhecia o capacete amarelo que anos mais tarde se converteu em marca registrada da superioridade e determinação.
Quando os carros já estavam dispersos na pista, com a liderança de Proust, o temporal se fez mais forte e nas telas de tevê começou a aparecer a imagem de Senna ultrapassando seus adversários. No momento em que o brasileiro passou pelo bicampeão Niki Lauda, na subida de St. Devote, entrou na história. O austríaco somente viu um flash. Ficou tão assustado que parou sua McLaren duas curvas depois alegando um defeito no carro. Enquanto Senna descontava seu atraso em relação ao líder, Proust fazia seu primeiro movimento na guerra pessoal e política que os manteve inimigos para sempre. O francês convenceu o diretor da prova, com acenos frenéticos de dentro do carro, de que era melhor interromper o espetáculo por questões de segurança. Por ironia do destino, o diretor da prova era o belga Jacky Ickx, que até o aparecimento de Senna era tratado como o melhor piloto em chuva da história da F1. O lobby de Proust funcionou. A corrida foi interrompida antes da metade, justamente quando Senna tinha preparado a arremetida que lhe daria a vitória. Nunca se viu um piloto tão furioso no pódio de Mônaco.
A segunda imagem fundamental da vida de Senna, Hollywood também a encontrará em Mônaco, quatro anos depois. Durante os treinos oficiais de classificação para o GP de Mônaco de 1988, Senna já era companheiro de equipe de Proust na McLaren, e um dos candidatos mais fortes ao título daquele ano. A dívida do principado para com o brasileiro ainda não havia sido paga e continuou pendente depois do drama que o público mais sofisticado da F1 presenciou no fim de semana de 15 de maio de 1988. Os mecânicos da equipe inglesa observaram assustados quando Ayrton voltou aos boxes sem nenhum problema no carro. "Não posso continuar pilotando hoje. Perdi a noção dos meus limites", disse. Quando contou ao mundo sua aventura, Ayrton descreveu detalhadamente a cena histórica. Relatou que começou a andar tão rápido, tão perto dos muros de proteção, que a velocidade e o perigo se apoderaram de seu corpo. Quanto mais rápido andava mais depressa queria ir. De repente – conta o brasileiro – se viu fora do automóvel envolto por uma espécie de aura. Percebeu que havia passado as barreiras humanas e que seguiria mais rápido até bater.
Na corrida, o espetáculo não foi menos dramático. Senna desapareceu na frente de seus adversários, especialmente de Proust. Estava com mais de um minuto de vantagem sobre o francês nas últimas voltas da prova e mesmo assim não conseguia reduzir o ritmo. Dava a impressão de que buscava o supremo castigo do rival, ganhando o seu primeiro GP de Mônaco com uma volta de vantagem sobre o segundo colocado. O sonho entrou em colapso quando faltavam doze voltas para o final da corrida. Senna cometeu um erro na curva de Portiers, antes da entrada do túnel. Bateu. Proust manteve a coroa do principado. Ayrton recebeu, por meio de um título no jornal Folha de São Paulo, o apelido que mudou sua carreira: "O Barbeiro de Mônaco".
Na última cena que Hollywood deverá gravar no cenário de Mônaco, Ayrton já não está presente. A imagem recordará o dia 15 de maio de 1994. O lugar da pole-position no grid de largada está vazio. No asfalto real aparece pintada a bandeira brasileira. Todos os pilotos sobreviventes de um fim-de-semana trágico e de um domingo inesquecível – 1º de maio de 1994, quando Senna morreu depois de um choque frontal contra o muro de concreto na curva Tamburello em Ímola – se perfilam atrás do lugar que o brasileiro ocupou 65 vezes em sua carreira de três títulos mundiais. Mônaco pede um minuto de silêncio mundial. A tela instalada no porto mais importante da Europa mostra imagens do rosto de Ayrton com a música Your Song cantada, bem baixinho, por Elton John.
A Fórmula 1 chora em público recordando o piloto mais perfeito de sua história. Cai a cortina. Sobem os títulos.
Entre as cenas, das três de nosso roteiro improvisado, a vida de Senna na F1 foi quase uma rotina de vitórias e batalhas contra seu rival Proust. Os duelistas protagonizaram todos os momentos importantes que o automobilismo mundial viveu em duas décadas. Senna ganhou todas as corridas que disputou em Mônaco, cinco vitórias consecutivas.
Senna morreu em Tamburello e já se transformou em monumento na mesma curva. Se transformou também em estrela, fundação, bicicleta, iate de luxo, óculos, relógio, atração turística, símbolo, exemplo, mártir e Deus. A notícia de sua morte no circuito Enzo e Dino Ferrari ocupou espaço na primeira página de todos, literalmente todos, os jornais do mundo, incluindo o jornal oficial do PC chinês e o Granma, do PC cubano. As imagens de seu enterro em São Paulo foram transmitidas ao vivo em todas as capitais européias.
Não se pode encerrar um capítulo com a história de Ayrton Senna sem recordar o piloto que os franceses apelidaram "magic" como o último dos campeões de um país que chegou a ficar sem dinheiro para pagar suas contas e mesmo assim produziu três dos melhores pilotos de todos os tempos. Emerson Fittipaldi começou a aventura. Descobriu a Europa em meados de 1969, ganhou sua primeira corrida de F1 em 70 e depois conquistou dois títulos mundiais, em 72 e 74, derrotando mitos do automobilismo como Jackie Stewart, Jacky Ickx e Ronnie Peterson. Emerson mostrou ao mundo que os brasileiros eram capazes de ganhar corrida, preparar carros e administrar uma popularidade internacional sem precedentes. Teve tanta coragem que não pensou duas vezes antes de arriscar sua carreira pessoal para garantir que o primeiro carro de F1 produzido na América do Sul, no Brasil, seria conduzido pelo melhor piloto da época.
Fittipaldi foi pioneiro de uma geração de brasileiros que conquistou oito títulos mundiais na F1 entre 72 e 92. Nelson Piquet conquistou o espaço que desejava, quando Emerson já estava explorando a América do Norte, onde ganhou o título da Fórmula Indy em 1989 e duas vezes as 500 milhas de Indianápolis, a corrida mais famosa do mundo. Se Emerson ensinou ao mundo automobilístico onde ficava o Brasil e Senna deu aulas de perfeição à F1, Piquet será recordado como um campeão que sabia viver. Foi um cigano inesquecível. Um tricampeão que nunca perdeu a oportunidade de uma boa piada ou de um gesto humanitário. Senna também o tinha como inimigo, mas depois de morto o mundo descobriu que Ayrton havia aprendido, meio sem querer, com Nelson, como levar a vida nas pistas e como ajudar, sem publicidade, às pessoas que precisavam.
Entre os anos 70 e 90, ser brasileiro era uma marca de superioridade natural entre os pilotos que chegavam à Europa. A nacionalidade indicava a qualidade do pedigree. Não surgiu até hoje frase mais típica para definir o talento dos brasileiros nas pistas que a definição filosófica do "escocês voador", Jackie Stewart, tricampeão mundial. "Não sei qual o segredo do êxito dos brasileiros na Fórmula 1", disse o "estrábico".
O segredo dos brasileiros foi para o céu com Senna. Entrou para a história das corridas com Ayrton, Nelson e Emerson. Ninguém consegue recordar os "meninos do Brasil" sem uma atitude de explícito respeito. Não se consegue vislumbrar o céu sem ter vontade de buscar ao menos por um milésimo de segundo, a estrela batizada em homenagem a Ayrton Senna da Silva. A estrela guia do automobilismo brasileiro.

Paulo César Vasconcellos

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