sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Biomas Brasileiros

Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. / As aves que aqui gorjeiam / Não gorjeiam como lá". Em Canção do Exílio, Gonçalves Dias (1823-1864) buscou inspiração na beleza das paisagens brasileiras. Ele não foi o único a se valer da riqueza natural do país. Tom Jobim, o mestre da bossa nova, tinha o verde como bem precioso. Nada mais natural cantar os encantos das terras brasileiras em prosa e verso, já que o Brasil é um dos países mais ricos em biodiversidade do planeta.
O território nacional reúne 12% de todos os animais e vegetais conhecidos no planeta. Uma a cada 11 espécies de mamífero existentes no mundo vive aqui. Nossos rios abrigam mais de um terço dos peixes de água doce catalogados e nossas matas, 50 mil espécies de plantas supe¬riores. O país apresenta, ainda, a maior diversidade global de primatas, anfíbios e insetos e a terceira maior de aves. Essa enorme variedade de vida se deve a uma particularidade brasileira: a nação abriga seis biomas - ambientes com diferentes características de solo, relevo, vegetação, clima e ecossistemas.
E como se o território do Brasil fosse recoberto por uma colcha de retalhos, em que cada pedaço de pano representa um ambiente natural com caracterís¬ticas únicas, agrupando muitas vezes exemplares da fauna e da flora que não existem em nenhum ponto do globo. A divisão do território nacional em biomas ajuda a entender nossa riqueza natural.
Ao mesmo tempo retrata como a dete¬rioração de cada ambiente segue as rotas ditadas pela história econômica do país. Identificar as características e o estado de cada um é fundamental para definir leis sobre o uso do solo, mapear áreas de risco, empreender ações de conservação e fiscalizar sua execução.

História da devastação

A mesma beleza tropical que encan¬tou os europeus que aqui chegaram no século XVI atiçou a cobiça que, desde então, não parou de destruir os biomas brasileiros. O primeiro e mais dramático foco de impactos foi a mata Atlântica, um dos cinco mais importantes hotspots (região biográfica) do planeta - região de grande biodiversidade que se encontra sob séria ameaça.
Tudo começou com a extração predatória de pau-brasil para a fabricação de tintura de tecidos e a construção civil. Em seguida, vieram as plantações de cana-de-açúcar e, mais tarde, as de café, que dizimaram a vegetação nativa e exauriram solos férteis dos estados do Rio de Janeiro, de São Paulo e, décadas depois, do norte do Paraná, do sul de Minas Gerais e do Espírito Santo. A mata Atlântica também sofreu os ataques da mineração durante o ciclo do ouro: matas foram destruídas e rios, assoreados. Mas foi o desenvolvimento da indústria, a partir da segunda metade do século XX, que dese¬nhou o cenário socioeconômico de maior impacto. O surgimento de grandes pólos industriais atraiu para as cidades grande número de trabalhadores rurais, que aban¬donavam o campo em busca de renda mais alta e vida mais confortável.

Mata Atlântica e zona costeira

Na faixa litorânea, a ocupação desorde¬nada das regiões metropolitanas avançou sobre florestas, restingas e manguezais, resultando em aglomerações de milhões de lares sem a infra-estrutura de sanea¬mento básico. O despejo de esgoto do¬méstico agravou a poluição dos córregos e comprometeu os mananciais. Atual¬mente, a maior metrópole do país, São Paulo, sofre constante ameaça de falta de abastecimento de água porque os rios -após tantos impactos - já não dão conta de fornecê-la. Como São Paulo, outras grandes capitais - Rio de Janeiro, Curi¬tiba e Belo Horizonte - são abastecidas pela água que brota da mata Atlântica e corre pelas bacias dos rios Paraná, Tietê, Doce, Paraíba do Sul, Paranapanema e São Francisco. Na verdade, essas bacias são responsáveis pelo abastecimento de 120 milhões de brasileiros, que vivem na região mais densamente povoada do país. Além de equilibrar o fluxo dos mananciais, a floresta contém encostas, regula o clima e garante a fertilidade do solo.
Hoje, as cidades instaladas na região da mata Atlântica concentram 70% da popu¬lação brasileira e 80% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Em conseqüência, a vegetação nativa - originalmente duas vezes o tamanho da França e mais de três vezes o território da Alemanha - encolhe para cerca de 7%. O que sobrou está, em sua maior parte, confinado em trechos descontínuos de mata. Campanhas pela conservação, projetos de reflorestamen-
to e a entrada em vigor da Lei da Mata Atlântica, sancionada em 2006 e regula¬mentada em 2008, reduziram o ritmo da devastação. O desafio agora é unir esses pedaços de mata pelos corredores de bio¬diversidade, que devem garantir o trânsito dos animais ao longo do litoral e, assim, o fluxo dos genes que eles carregam.
Na zona costeira, a seqüência de praias, restingas, dunas e manguezais que se estendem por 8 mil quilômetros esconde problemas como a poluição por esgoto e a exploração predatória dos recursos naturais. A especulação imobi¬liária, alimentada pelo crescimento das cidades, alterou as feições de ecossiste¬mas frágeis. O perigo de vazamentos de petróleo e os efeitos do turismo desorde¬nado podem atingir os bancos de corais, interferindo na pesca, que sustenta as comunidades caiçaras. A captura além dos limites de reposição dos estoques naturais já transformou em raridade muitas espécies antes comuns.

Amazônia

A devastação ocorre também longe das zonas urbanizadas. A Amazônia, que apresenta a mais baixa densidade demográfica do país, sofre com o desmatamento e a poluição dos mananciais. Foco de atenção mundial por sua im¬portância para o clima global, a floresta Amazônica guarda quase metade das espécies animais e vegetais e a maior bacia hidrográfica do planeta. Nesse caso, a ameaça vem da mineração, da extração ilegal de madeira e do avanço de pastagens e plantações, que já afeta¬ram quase 20% do ambiente.
Em 2008, o governo comemorou: após três anos de queda, o desmatamento na Amazônia no período 2007-2008 cres¬ceu, sim. Mas menos do que se esperava: 3,6%, bem inferior à previsão inicial, de 30%. Ainda assim, o desmatamento é imenso. Em dezembro de 2008, o go¬verno federal lançou o Plano Nacional sobre Mudança do Clima, que estimula metas para redução gradual do desmaie e, por conseqüência, da emissão de gases do efeito estufa.
Os ambientalistas dizem que a retra¬ção no ritmo do desmatamento tem me¬nos a ver com boas intenções ambientais e mais com fortes motivos econômicos. Eles temem que grandes obras, como usinas hidrelétricas e pavimentação de estradas, projetadas para levar desenvolvimento a mais de 20 milhões de habi¬tantes da região amazônica, promovam ondas de imigração e acelerem a agressão ao ambiente. E advertem que é preciso tomar medidas duradouras, e não palia¬tivas, para proteger parques e reservas, fiscalizar e viabilizar alternativas econômicas capazes de deixar a floresta de pé. A pecuária é a maior responsável pelo desmatamento da Amazônia. A soja vem logo atrás - e a principal frente desse avanço se encontra na zona de transição com o cerrado.

Cerrado

O cerrado merece atenção especial. Incluído na lista dos 34 hotspots - os refúgios mais ricos e também mais amea¬çados do planeta -, esse bioma é a região brasileira depois da mata Atlântica que mais sofreu alterações com a ocupação humana. Inicialmente, a maior agressão veio dos garimpes, pela poluição dos rios por mercúrio e pela erosão do solo. Mais tarde, a terra passou a ser castigada pela monocultura intensiva de grãos, que ocu¬pa 6% do bioma, e pela pecuária, praticada em 60% da área, muitas vezes de maneira extensiva e com baixa tecnologia, O uso indiscriminado de defensivos agrícolas aumentou a degradação.
Além disso, as pastagens e as planta¬ções fragmentam a paisagem natural em ilhas de vegetação muitas vezes pequenas demais para a sobrevivência das espécies animais. Menos de 2% do cerrado encontra-se em área protegida. E entre as novas ameaças estão as plantações de cana-de-açúcar para produção de biocombustível, que avançam sobre os menos de 40% da região que ainda man¬tém a cobertura original. Se as taxas de desmatamento continuarem no atual ritmo, o cerrado poderá desaparecer em 2030. Localizado na porção central do país, ele tem grande importância eco¬lógica porque é zona de transição entre diferentes biomas e apresenta regiões com vegetação e fauna únicas.

Caatinga.

A caatinga é o único bioma exclusi¬vamente nacional. Devido ao solo árido e à vegetação ressequida, num dos cli¬mas mais causticantes do planeta, ela foi, por séculos, vista como uma região naturalmente pobre e inóspita. Hoje é reconhecida como reserva de alta biodiversidade, também em risco.
As grandes ameaças vêm do corte de madeira para carvão e lenha, que deixou desertos 40 mil quilômetros quadrados nos últimos 15 anos do século XX. A salinização do solo, causada por projetos inadequados de irrigação agrícola em so¬los rasos e pedregosos, completa o quadro dos perigos. Estima-se que cerca de 50% da área do bioma tenha sofrido algum tipo de deterioração e 20% dela esteja completamente degradada.

Pantanal

A situação é complicada também no Pantanal, a maior planície inundáveis do planeta e um dos ambientes silvestres mais ricos em espécies, principalmente aves e répteis. O assoreamento causado por práti¬cas agrícolas inadequadas e pela ocupação das nascentes entope de barro os rios que descem dos chapadões e causa impactos na planície pantaneira. Como resultado, a pesca se reduz e o ciclo das águas que rege o ecossistema da região é alterado.
O problema é agravado pelo turismo desorganizado e pela navegação nos rios Paraguai e Paraná, que colocam em risco as frágeis matas ciliares, provocando mais ero¬são. Nesse bioma, a agropecuária também produz estragos, com o despejo de pestici¬das, queimadas para pastagem e introdução de espécies exóticas de capim.

Pampas

Nos campos sulinos, ou pampas, a vege¬tação aberta e de pequeno porte, o clima ameno e as terras férteis favoreceram a expansão de arroz, milho, trigo e soja. Devido à fertilidade do solo, as araucá¬rias, que constituíam a vegetação original, foram substituídas por plantações que se espalharam sem critério para proteção do solo e retirada da água dos rios para irrigação. Resultado: não é apenas o campo que sofre com a desertificação e a erosão. As cidades também vivem problemas de desabastecimento de água.
PESQUISA APONTA CRESCIMENTO DO DESMATAMENTO EM RE6IÕES METROPOLITANAS

Três das maiores regiões metropo¬litanas do país perderam 793 hecta¬res de Mata Atlântica nos últimos t rês a nos. De acordo com um estudo divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pela Fundação SOS Mata Atlântica, São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória desmataram o equivalente a 990 campos de futebol iguais ao do Maracanã, de 200532008.
Ainda segundo o levantamento, a área é 247%maior do que a desmatada nas três regiões entre 2000 e 2005, quando per¬deram 228 hectares de mata nativa.
O estudo revela que São Paulo foi a região onde o desmatamento nas cida¬des foi mais intenso. Nos últimos três anos, foram derrubados 437 hectares de Mata Atlântica - área quase nove vezes maior do que a desmaiada entre 2000 e 2005. Desse total, 201 hectares foram destruídos para a construção do complexo viário do Rodoanel, que inter¬ligará algumas das principais rodovias que chegam à capita l paulista. (...)
Agência Brasil, 17/12/2008 Vinícius Konchinskí

Para saber mais leia: ATUALIDADES VESTIBULAR 2009 – Ed. Abril

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