sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Cordel - Seca no Nordeste

Seca as terras as folhas caem,
morre o gado sai o povo,
O vento varre a campina,
Rebenta a seca de novo;
Cinco, seis mil emigrantes
Flagelados retirantes
vagam mendigando o pão ,
Acabam-se os animais
ficando limpo os currais
Onde houve a criação.

Não se vê uma folha verde
Em todo aquele sertão
Não há um entre aqueles
Que mostre satisfação
Os touros que nas fazendas
Entravam em lutas tremendas,
Hoje nem vão mais o campo
É um sítio de amarguras
Nem mais nas noites escuras
Lampeja um só pirilampo.

Foi a fome negra e crua
Nódoa preta da história
Que trouxe-lhe o ultimatum
Foi o decreto terrível
Que a grande pena invisível
Com energia e ciência
Autorizou que a fome
Mandasse riscar meu nome
Do livro da existência.

E a fome obedecendo
A sentença foi cumprida
Descarregando lhe o gládio
Tirou -lhe de um golpe a vida
Não olhou o seu estado
Deixando desamparado
Ao pé de si um filhinho,
Dizendo já existisses
Porque da terra saísses
Volta ao mesmo caminho.

Vê-se uma mãe cadavérica
Que já não pode falar,
Estreitando o filho ao peito
Sem o poder consolar
Lança-lhe um olhar materno
Soluça implora ao Eterno
Invoca da Virgem o nome
Ela débil triste e louca
Apenas beija-lhe a boca
E ambos morrem de fome.

Vê-se moças elegantes
Atravessarem as ruas
Umas com roupas em tira
Outras até quase nuas,
Passam tristes, envergonhadas
Da cruel fome, obrigadas
Em procura de socorros
Nas portas dos potentados
Pedem chorando os criados
O que sobrou dos cachorros.

O gado urra com fome,
Berra o bezerro enjeitado
Tomba o carneiro por terra
Pela fome fulminado,
O bode procura em vão
Só acha pedras no chão
Põe se depois a berrar,
A cabra em lástima completa
O cabrito ainda penetra
Procurando o que mamar.
Grandes cavalos de selas
De muito grande valor
Quando passam na fazenda
Provocam pena ao senhor
Como é diferente agora
Causava admiração,
Era russo hoje está preto
Parecendo um esqueleto
Carcomido pelo chão.

Hoje nem os pássaros cantam
Nas horas do arrebol
O juriti não suspira
Depois que se põe o sol
Tudo ali hoje é tristeza
A própria cobra se pesa
De tantos que ali padecem
Os camaradas antigos
Passam pelos seus amigos
Fingem que não os conhecem.
Santo Deus! Quantas misérias
Contaminam nossa terra!
No Brasil ataca a sede
Na Europa assola a guerra
A Europa ainda diz
O governo do país
Trabalha para o nosso bem
O nosso em vez de nos dar
Manda logo nos tomar
O pouco que ainda se tem
Vê-se nove ,dez,num grupo
Fazendo súplicas ao
Eterno Crianças pedindo a
Deus Senhor! Mandai-nos inverno,
Vem ,oh! Grande natureza
Examinar a fraqueza
Da frágil humanidade
A natureza a sorrir
Vê-la sem vida a cair
Responde:o tempo é debalde.
Os habitantes procuram
O Governo Federal
Implorando que os socorra
Naquele terrível mal
A criança estira a mão
Diz senhor tem compaixão
E ele nem dar-lhe ouvido
É tanto a sua fraqueza
Que morrendo de surpresa
Não pode dar um gemido.
Alguém no Rio de Janeiro
Deu dinheiro e remeteu
Porém não sei o que houve
Que cá não parece
O dinheiro é tão sabido
Que quis ficar escondido
Nos cofres dos potentados
Ignora-se esse meio
Eu penso que ele achou feio
Os bolsos dos flagelados.
O Governo Federal
Querendo remia o Norte
Porém cresceu o imposto
Foi mesmo que dar-lhe a morte
Um meie o facão e rola-o
O Estado aqui esfola-o
Vai tudo dessa maneira
O municípios acha os troços
Ajunta o resto dos ossos
Manda vendê-los na feira.
Leandro Gomes de Barros
Vocabulário

PiriIampo: Vaga-lume
Arrebol: Cor avermelhada das Nuvens ao nascer do Pôr do Sol
Nodoa: Mancha
Potentados: Pessoa de grande poder
Carcomido: Corroído
Debalde: Em vão .inutilmente
Esfolar: Sofrer ou fazer sofrer,!
Ultimatum: Últimas condições proposta por um estado ao outro antes da declaração anti-guerra.
Gládio: Espada de dois lados de corte.

Um comentário:

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