sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Mudanças na migração

A desconcentração das atividades econômicas pelas regiões do país modifica os fluxos migratórios, pois as pessoas deixam os locais com pouco emprego e partem em busca dos novos pólos de desenvolvimento.
As cidades brasileiras cuja pro¬dução mais cresceu nos últimos anos ficam no interior, nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste. É algo novo. Historicamente, o Brasil desenvol¬veu largamente sua economia na faixa litorânea ou em suas proximidades.
No século XX, esse processo se concen¬trou na Região Sudeste, que desenvolveu as fábricas e atraiu milhões de pessoas de todas as regiões, particularmente do Nordeste, para trabalhar nelas e construir suas cidades, algumas das quais viraram metrópoles. Por décadas, o principal fluxo migratório brasileiro vinha em direção ao Sudeste, inchando as grandes cidades. Nos últimos anos, a situação vem mudando: a dispersão das atividades econômicas
pelas diversas regiões e das capitais para o interior significa que muita gente está indo para outros locais ou voltando aterra de origem.
Um pouco de luz foi lançada nesse fenômeno com um estudo recente feito por economistas, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Esta¬tística (IBGE), mostrando que a maioria dos municípios que tiveram maior cres¬cimento econômico entre 1999 e 2005 está localizada na fronteira agrícola do cerrado - em Mato Grosso, em Goiás, no Tocantins e no sul do Maranhão - e aqueles cuja economia encolheu se en¬contram a até 100 quilômetros do litoral, sobretudo nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
Fluxos migratórios

Naturalmente, em lugares nos quais a economia diminui a renda cai, os empre¬gos faltam e unia parte das pessoas vai embora. Esses fatores são essenciais para dar forma e direção a um fluxo migratório humano, tanto dentro dos países quanto no cenário internacional.
A população brasileira é formada his¬toricamente por um trânsito intenso de imigrantes - espontâneos ou forçados - miscigenados com os índios que já viviam por aqui. No início do século XVI, chegaram os europeus - prin¬cipalmente portugueses - e, algumas décadas depois, iniciou-se o tráfico de escravos negros, capturados na Áfri¬ca, que durou cerca de 300 anos. No século XIX, começou a nova leva de imigrantes europeus - principalmente italianos, alemães e espanhóis -, trazidos para substituir a mão de obra escrava. Em 1908, teve início a imigração japonesa. Mesmo hoje, a imigração de fora não cessa, com a vinda de bolivianos e paraguaios para centros urbanos brasileiros.
A ocupação do imenso território bra¬sileiro - a partir da região costeira -reflete-se até hoje na intensa presença de população na faixa litorânea, o que determina a concentração das cidades na região próxima ao litoral . O avanço para o interior deu-se em sucessivos fluxos migratórios, a partir do fim do século XVII, com a notícia da descoberta de ouro em Minas Gerais.
Levas de paulistas e nordestinos dirigi¬ram-se ao estado, avançando em direção a Goiás e Mato Grosso em busca de metais preciosos. No fim do século XIX, a explo¬ração da borracha foi o vetor de atração de muitos nordestinos, em especial cearen¬ses, para a região amazônica. Na mesma época, mineiros e nordestinos seguiam para o interior de São Paulo e o norte do Paraná, com imigrantes europeus, durante a expansão da cultura cafeeira.
Mas o tradicional movimento migrató¬rio, que deslocou no decorrer do século XX enormes contingentes de nordesti¬nos à Região Sudeste, em especial a São Paulo, vem se enfraquecendo. Em 2006, a região perdeu mais de 200 mil moradores em relação ao que recebeu. O contrário começa a ocorrer em estados como o Ceará e a Bahia, que tiveram um saldo migratório positivo no mesmo ano.

Industrialização

A expansão das atividades agríco¬las, o nascimento das indústrias e sua expansão e a decorrente urbanização, durante o século passado, trouxeram para o Sudeste, sobretudo para São Paulo e Rio de Janeiro, brasileiros de todas as regiões, principalmente do Nordeste. Esse processo acabou cau¬sando forte concentração populacional e econômica no Sudeste e aprofundou a desigualdade que já existia entre as regiões brasileiras. O estado de São Paulo, em 1970, produzia 39,4% do PIB brasileiro e a Região Sudeste, 65%.
Na década passada, esse cenário come¬çou a mudar, com um movimento de dis¬persão das indústrias e uma nova dinâmica econômica nas regiões brasileiras. Entre os principais fatores para essas mudanças estão a expansão e a melhoria na infraestrutura nacional de transportes, de telecomunicações e de energia elétrica, a mudança da capital para Brasília, em 1960, a expansão das fronteiras agrícolas e a criação de sistemas de incentivos do governo federal ao desen¬volvimento das regiões mais carentes.

Desconcentração

O Brasil entra no século XXI com uma economia ainda muito concentrada nas regiões Sudeste e, agora, Sul, mas com fortes sinais de desenvolvimento em ou¬tras partes do território. Essa situação pode ser detectada nos níveis de parti¬cipação das regiões no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, termômetro do comportamento da economia: entre 1970 e 2005, o crescimento do PIB brasilei¬ro não foi homogêneo entre as regiões. Nestes 35 anos, cresceu a fatia do PIB relativa ao Nordeste, Norte e Centro-Oeste, enquanto a participação do Sul teve pequena redução e a do Sudeste caiu mais, de 65% para 56,5% (veja a tabela abaixo). Nesse mesmo período, os movimentos de população obedecem a duas forças simultâneas: o desestímulo a permanecer no Sudeste e a atração exercida por outras regiões do Brasil.

Desemprego no Sudeste

O marasmo econômico de parte das últimas décadas e a dispersão das indús¬trias resultaram em grandes modificações na economia no Sudeste, principalmente em São Paulo. A região que, durante a maior parte do século XX, tinha três quartos das indústrias nacionais, teve sua participação bastante reduzida. Con¬tribuíram para isso o que se chama de guerra fiscal - a isenção de impostos e outras vantagens oferecidas por governos estaduais ou municipais interessados em atrair indústrias - e também estímulos do governo federal para a instalação de empresas em outras regiões.
Entre 1986 e 2002, a Grande São Pau¬lo perdeu quase l milhão de empregos industriais. Grande parte das vagas existentes na região metropolitana era ocupada por imigrantes. A taxa de de¬semprego cresceu, e a dificuldade para as famílias se manter, também. A crise de emprego afetou o trabalho temporá¬rio e o informal, agravando as condições de sobrevivência na metrópole. A ida para outras regiões do Brasil, como Centro-Oeste ou Norte, ou o retorno ao estado de origem passaram, então, a ser uma alternativa considerada por milhares de pessoas.
Esse fenômeno foi registrado pela Pes¬quisa Nacional por Amostra de Domicí¬lios (Pnad), do IBGE, de 2006, na qual o estado de São Paulo aparece com uma perda de 207 mil habitantes no saldo mi¬gratório - o total de imigrantes menos o de emigrantes. Na mesma pesquisa, esta¬dos que, tradicionalmente, apresentavam saldo migratório negativo inverteram o sinal, como Bahia, Ceará, Pará e Rio Gran¬de do Norte. O aprofundamento da pesquisa mostra que, dos migrantes de São Paulo para a Bahia, 65% eram baianos de nascimento. Percentual semelhante de cearenses foi observado entre os migrantes que se dirigiram ao Ceará. Essa é a chamada migração de retorno.
De acordo com o IBGE, 39,8% dos bra¬sileiros estavam fora do município no qual nasceram em 2007. Já a proporção de pessoas que migraram de um estado para outro era de 15,8%. Atualmente, a região com mais migrantes é a Centro-Oeste, onde 30,3% da população vem de outras localidades; a que tem o menor número de imigrantes é a Nordeste, com 2,8%.
Quando se consideram os números ab¬solutos de migrantes, ainda é no Sudeste que vivem mais brasileiros fora da região natal, e o Nordeste mantém-se como a ter¬ra de origem da maior parte dos migrantes brasileiros. Percebe-se, no entanto, que, além da migração de retorno, a Região Nordeste tem recebido cada vez mais gente nascida no Sudeste.

Nordeste: indústrias

A melhoria da infraestrutura e o sistema de incentivos fiscais administrado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) são os principais responsáveis pelo aumento da produção industrial nordestina. Na Bahia, o foco mais importante de atração é o Polo Pe¬troquímico de Camaçari, da Petrobras. No Ceará, indústrias têxteis e de calçados convergiram para a região de Fortaleza. Uma vantagem comparativa da região é a maior proximidade com mercados compradores no exterior, como a Europa e os Estados Unidos, o que reduz o custo do transporte em relação ao Sul-Sudeste, além da mão de obra mais barata.
A agroindústria também vem se desen¬volvendo, com base nas culturas irrigadas de frutas em regiões semi-áridas - como as do vale do São Francisco, na Bahia e em Pernambuco; Mossoró Açu, no Rio Grande do Norte; vale do Acaraú, no Ceará; e vale do Parnaíba, no Piauí - e na expansão do agronegócio no cerrado, com vastas cultu¬ras de grãos numa área que abrange o oeste da Bahia e o sul do Piauí e do Maranhão.
Centro-Oeste: agronegócio

A expansão das atividades econômicas no cerrado tornou-se viável com a melhoria da infraestrutura, tanto da malha rodoviária quanto ferroviária. Do ponto de vista tec¬nológico, pesquisas de grãos e técnicas de plantio vinham sendo feitas desde a década de 1970 e conseguiram adaptar a semente de soja para o plantio no cerrado, entre outras culturas. Nosso país se especializou na produção pecuária, de grãos e de algodão em áreas de cerrado.
Com isso, Mato Grosso, que era respon¬sável em 1990 por 3% da produção nacional
de algodão, em 12 anos passou a produzir mais da metade do algodão brasileiro (53%). O mesmo ocorreu em relação ao rebanho bovino, com base nas melhorias genéticas e na ampliação de pastagens em direção à Amazônia, fazendo com que as regiões Centro-Oeste e Norte fossem responsáveis, em 2002, por 51% da produção nacional.
Quando se verifica a grande migração para o Centro-Oeste, não se pode esquecer da importância da fundação de Brasília, que atraiu em 50 anos milhões de pessoas para o entorno do Distrito Federal e mudou toda a economia da região.
Sul: diversificação
Com sua economia ligada nas últimas duas décadas ao estabelecimento do Mercosul, a Região Sul mantém uma indústria forte nos setores metalúrgico, automo¬bilístico e têxtil e se destaca, sobretudo, pela produção agrícola. Os estados do Sul respondem por quase metade de toda a produção nacional de grãos, além de produzirem tabaco, cebola, maçã e alho. A área apresenta boa qualidade de vida para a população, com taxas elevadas, em relação à média nacional, nos setores de educação e saúde.

Norte: minérios
Na Região Norte, os estados do Pará, Acre e Roraima apresentaram saldo mi¬gratório positivo em 2006. Os empre¬gos que atraem trabalhadores de outras partes do país, com destaque para os nordestinos, concentram-se na produção de minerais metálicos, principalmente ferro e alumínio, no Pará; nas atividades do complexo Carajás - São Luís, que reú¬ne mineração, transporte por ferrovia e embarque no porto de Itaqui (MA); e no extrativismo vegetal. No Amazo¬nas, o Pólo Industrial da Zona Franca de Manaus é um dos principais do país e mantém-se em expansão, estando na base de boa parte do PIB do estado.

Movimentos intra-regionais.
O surgimento e a consolidação de novas áreas de atração têm possibilita¬do que um número cada vez maior de migrantes se mova entre estados vizi¬nhos, caracterizando o que é conhecido como movimentos migratórios intra-¬regionais - ou seja, dentro das regiões. Esse tipo de deslocamento, atualmente, tem maior importância no Nordeste e no Sul, regiões marcadas por forte movimento de emigração no passa¬do. Com o crescimento econômico de suas cidades, tanto as metropolitanas como as do interior, essas regiões pas¬sam a reter sua população, além de se tornar pólos de atração da migração de retorno.
O fortalecimento das economias es¬taduais provoca também uma migração que sai das capitais para o interior. Uma causa disso é a dês concentração industrial: as empresas cada vez mais precisam de profissionais qualificados, que, até pouco tempo atrás, não con-seguiam encontrar boa colocação fora das grandes cidades. As indústrias que migram para cidades menores acabam oferecendo empregos que mantêm boa remuneração, combinada com quali¬dade de vida, uma preocupação ainda recente em nosso país.
O FUTURO NAS CIDADES

Os anos 60 registraram um dramático fluxo migratório do campo para as ci¬dades. Quando a década terminou, um recenseamento revelou a situação iné¬dita: pela primeira vez, no Brasil, havia mais gente vivendo em áreas urbanas do que em zonas rurais. (...)
Milhares de pessoas trocavam as cidades do interior pelas capitais e, principalmente, os estados pobres pe¬tos mais ricos. Buscavam empregos nas áreas onde a industrialização começava a despontar. Rota movimentadíssima era a que levava famílias inteiras do Nordeste para as cidades do Rio de janeiro e de São Paulo, (...)
Eml968, só a capital paulista recebia 10.000 novos moradores a cada mês. O
fluxo Nordeste-Sudeste caiu quase pe¬la metade nos anos 80 e, atualmente, é insignificante. A tendência desenhada nos anos 6o, entretanto, definiu o Brasil do século XXI.
O (..,)censo realizado pelo governo mos¬trou que, em 2000,81% da população já vivia em áreas urbanas. Esse número estará na casa dos 90% até 2020. (...) A novidade é que, agora, não são os estados mais desenvolvidos que atuam como pólos de atração. (...) As novas rotas migratórias apontam para o Pará, ao norte, Santa Ca¬tarina, ao sul, e para os três estados do Centro-Oeste-MatoGrosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, Em todos esses casos, é a pujança do agronegócio que tem criado empregos e atraído milhares de pessoas.
VEJA, setembro de 2008
Saiba mais lendo : Atualidades vestibular – editora Abril

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