sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Brasil e o G20

O Grupo dos 20, mais conhe¬cido como G-20, formado por 19 países desenvolvidos e em Desenvolvimento e pela União Européia.

90% do PIB global

Criado em 1999, o G-20 segue os mol¬des de um bloco mais antigo, o G-8, do qual fazem parte os países mais ricos do mundo - França, Alemanha; Itália, Japão, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá
- e a Federação Russa. Nos úl¬timos anos, as reuniões do G-8 (e de seu antecessor G-7, sem os russos) eram o principal fórum internacional para o de¬bate de medidas econômicas. Tanto o G-8 como o G-20 não têm sede própria, orçamento nem equipe permanente sobretudo um espaço para os líderes de nações importantes se encontrarem pessoalmente com certa freqüência, a fira de debater os proble¬mas mundiais (em geral, com o enfoque econômico e comercial, mas também político) e, se for o caso, estabelecer objetivos, adotar medidas conjuntas ou ao menos entrar em sintonia uns com os outros. É claro que, antes de os presidentes, premiês, ministros de Economia e Finanças e presidentes dos bancos centrais se reu¬nirem, as equipes técnicas dos países articulam-se para fazer os preparativos, discutir de forma detalhada as questões e redigir as declarações finais.
As origens do G-7 remontam à dé¬cada de 1970 e estão relacionadas aos problemas colocados para os países ri¬cos a partir da crise do petróleo e da recessão mundial decorrente dela. Já o G-20 nasceu como uma resposta à crise financeira do fim dos anos 1990 e em decorrência do fato de que era preciso incluir os principais países emergentes nas grandes discussões e decisões, pelo peso que passaram a ter suas economias no cenário internacional. Dele fazem parte todos os membros do G-8, além de China, índia e Brasil, entre outros. A crise financeira global atual, agravada no fim de 2008, ressaltou a importância crescente das economias emergentes, entre as quais a brasileira, principalmente porque essa crise teve origem nos Estados Unidos e vem afetando de forma mais severa as nações ricas .
O G-20 reúne países que, juntos, res¬pondem por 90% do PIE do planeta - ou seja, de tudo o que se produz no mundo, 80% do comércio global e dois terços da po¬pulação mundial. A presidência do bloco é rotati¬va e, a cada ano, exercida por um representante de uma região dife¬rente do planeta.
Em 2008, a presidência foi brasileira; em 2009, é do Reino Unido e, em 2010, será da Coréia do Sul. A União Européia é representada pelo líder do país que estiver ocupando a sua presidência do conselho e pelo presidente do banco central europeu.

Novo cenário

Até poucos anos atrás, o G-8 ainda era o fórum de maior destaque no cenário internacional. Em 2009, muitos anuncia¬vam a "morte do G-8", ou seja, a perda de seu papel de referência principal, ao me¬nos neste momento. "Hoje, por qualquer critério, economias como China, Brasil e índia são importantes e têm um efeito na economia mundial maior do que muitos outros que estão no G-8", disse o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, em junho. "Essas economias (do G-8) continuarão a ser importantes, mas não podem substituir a imprescindível presença de países como a China, o Brasil, a índia, e mesmo a África também tem de ser representada."
Em julho, foi a vez de a chanceler alemã, Angela Merkel, falar sobre a perda da rele¬vância do G-8 e ressaltar a importância do G-20. "Estamos observando que o mundo está crescendo junto e os problemas que en¬frentamos não podem ser resolvidos pelos países industrializados sozinhos", afirmou no Parlamento alemão. Uma semana antes da reunião de cúpula do G-8, na cidade italiana de L`Áquila, ela disse considerar o encontro um fórum para discussões preliminares, com as decisões globais relevantes sendo tomadas no bloco de formato maior (leia-se G-20). Pela primeira vez, o G-8 faria uma declaração final com um gru¬po de países emergentes - chamado G-5, formado por Brasil, China, índia, México e África do Sul -, além do Egito.
Nesse contexto de aumento da rele¬vância do G-20, a diplomacia brasileira busca um papel maior na condução dos negócios globais e conta com o lugar particular ocupado pelo presidente Lula, como líder de uni partido de es¬querda, mas que, no exercício do poder, adotou várias políticas conservadoras, sobretudo no terreno econômico - con¬seguindo manter sua popularidade in¬terna (beirando os 70% em meados de 2009). Assim, na América Latina, Lula faz um contraponto às posições mais nacionalistas e radicais do presidente venezuelano, Hugo Chávez, e adota uma linha de colaboração com a política ex¬terna dos Estados Unidos em diversos pontos. O país chefia as tropas de missão de paz da ONU estacionadas no Haiti desde 2004, num momento em que os EUA mantêm centenas de milhares de militares no exterior e buscam parceiros para dividir os altos custos financeiros
e humanos das intervenções militares no tabuleiro global. Nas negociações econômicas globais, por vezes, também adota posições próximas das dos países desenvolvidos.
O papel-chave do Brasil, nesse contex¬to, relaciona-se ao fato de que o governo de Lula dialoga diretamente tanto com os governantes de esquerda e ainda dos países pobres das Américas e da África quanto com os mais conservadores dos países ricos, que prezam a moderação do mandato do líder petista.
O peso do país também é grande (ou deveria ser) quando são discutidas ques¬tões ambientais. A dimensão continental do Brasil, que abriga a maior floresta tro¬pical do mundo - a floresta Amazônica -, faz com que o país seja fundamental nas negociações sobre as medidas para combater as mudanças climáticas.

Rodada Doha

Uma questão importante em debate nos fóruns globais é a liberalização da economia mundial. O agravamento da crise em 2008 levou uma série de países a adotar medidas protecionistas, como o aumento de impostos para produtos importados, visando a proteger sua pro¬dução. Ocorre que a própria essência da globalização é o fluxo livre e intenso de capitais, produtos e serviços entre os países Os países ricos, bastante industrializados, fazem pressão permanente visando à abertura das economias, pois possuem fortes vantagens competitivas (grande produtividade, produção informatizada, alta tecnologia).
As negociações sobre as normas que regem o comércio global, na Rodada Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC), estão emperradas desde 2006.0 que se discute na Rodada Doha são principalmente a redu¬ção dos subsídios agrícolas que os países ricos concedem aos produtores locais (o que beneficiaria o comércio externo dos países pobres) e o corte das tarifas de importação que os países em desen¬volvimento impõem às importações das nações desenvolvidas (o que beneficiaria o comércio externo dos países ricos). As nações industrializadas, como os Estados Unidos e os países da União Européia, até concordavam em baixar um pouco as barreiras alfandegárias e reduzir a ajuda a seus produtores - desde que, em troca, os exportadores de produtos agrícolas, sobretudo Brasil e índia, derrubem as taxas impostas sobre os produtos indus¬trializados comprados lá fora.
A questão é que, sem proteção alfande¬gária, a indústria dos países em desenvol¬vimento não consegue competir com os produtos estrangeiros - o que condenaria esses países à eterna dependência econô¬mica da produção fabril do mundo rico. Sern acordo, a Rodada Doha, iniciada em 2001 e que deveria acabar em 2006, conti¬nua até hoje. Neste momento, na verdade, as discussões ficaram até mais difíceis, por causa dos sofrimentos impostos pela crise e do conflito dos interesses em jogo.
A liberalização comercial tem sido uma das bandeiras do presidente Lula. O Brasil trabalha ativamente para con¬cluir a Rodada Doha, adotando posições mais moderadas do que a índia, por exemplo, que trava um braço de ferro com os países desenvolvidos em torno da defesa de seu mercado interno - talvez o principal motivo do impasse nas nego¬ciações. Ao fim da cúpula do G-20, em Londres, em abril, anunciou-se que os líderes concordaram com a necessidade de "agir urgentemente" para encerrar a Rodada Doha e denunciar os países que imponham medidas protecionistas.

Diversificação de mercados

No terreno do comércio exterior, o governo brasilei¬ro esforçou-se nos últimos anos para diversificar seus parceiros, visando a reduzir o peso dos Estados Unidos nas transa¬ções de compra e venda do Brasil. Há décadas, o maior parceiro comercial brasileiro são os EUA. E, pelos números oficiais divulgados em maio referentes à balança comercial de abril de 2009, a China ultrapassou os EUA como o principal parceiro econômico do Brasil. A que¬da de 22,2% nas exportações globais brasileiras no primeiro semes¬tre de 2009 (em comparação com o mesmo período de 2008), provocada principalmente pela crise financeira global amenizada peio crescimento de 15,8% nas exportações para a Ásia. A China, sozinha, importou 10,455 bilhões de dólares em produtos do Brasil, enquanto os norte-americanos compraram 7,307 bilhões.
O Mercosul (acordo de livre comércio com Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela) também não anda em seu melhor momento, com as exportações para os países do bloco registrando uma queda de 40,3% neste primeiro semes¬tre. Barreiras comerciais impostas pela Argentina no fim de 2008 afetaram as sxportaçÕes de produtos brasileiros naquele país.
Em seu esforço para multiplicar os parceiros comerciais, o governo brasilei¬ro tem investido em missões diplomáti¬cas e comerciais para a África e o Oriente Médio, que vêm conseguindo ampliar a relação comercial com os países dessas regiões do mundo.
Bric
O Brasil integra outro grupo de países que vêm dando o que falar na imprensa mundial, o Bric. O nome - formado pelas iniciais de Brasil, Rússia, índia e China - foi criado em 2001 pelo economista Jim O'Neill, do grupo Lromman sacns, para designar os quatro principais países emergentes. A partir de projeções demográficas e modelos de acumulação de capital e crescimento de produtividade, o Gold¬man Sachs projetou o desenvolvimento da economia desses países até 2050. Quando fez isso, a estimativa era de que os Brics se tornassem a maior força econômica do mundo.
A forte presença desses países ficou clara na reunião da OMC de dezembro de 2005, quando os países em desenvol¬vimento, liderados por Brasil e índia, se juntaram aos subdesenvolvidos para exigir da União Européia e dos EUA re¬gras mais equitativas de comércio inter¬nacional, cujo crescimento, nos últimos anos, beneficiou sobretudo as nações ricas.
Em larga medida, a força dos Brics provém da enorme fatia da população mundial concentrada nos quatro países. Neles vivem 2,7 bilhões de habitantes, o equivalente a 40% da humanidade. A grande maioria desse contingente é de chineses e indianos. Nos últimos anos, são justamente a China e a índia as na¬ções com as mais aceleradas taxas de crescimento econômico entre as grandes economias do planeta.

País quer participar do Conselho de Segurança da ONU

Um dos grandes objetivos da diplomacia brasileira há vários anos é conseguir um assento permanente no Conselho de Se¬gurança (CS) da Organização das Nações Unidas. O conselho é o principal órgão da ONU e delibera sobre a segurança mun¬dial, definindo sanções e intervenções militares. Atualmente, o CS é constituído por cinco membros permanentes - os paí¬ses vencedores da II Guerra Mundial: EUA, China, França, Federação Russa e Reino Unido -, que têm poder de veto sobre qual¬quer proposta da ONU. O conselho abriga ainda dez membros rotativos, eleitos a cada dois anos. O Brasil já foi membro temporário por nove mandatos, sendo o último entre 2004 e 2005.
Em meados de fevereiro de 2009, as 192 nações que integram a ONU recomeçaram a discussão das diversas propostas de reforma do organismo, entre elas a de aumentar de 15 para 24 ou 26 o número de países que compõem o Conselho de Segurança. Com esse objetivo em comum, Brasil, Alemanha, Japão e índia formaram, em 2004, o Gru¬po dos 4 (G-4). O bloco quer a criação de mais seis vagas permanentes e aceita que, inicialmente, sejam sem poder de veto. Os novos lugares seriam ocupados pelos integrantes do grupo, mais dois países africanos (os principais candidatos são a África do Sul, a Nigéria e o Egito).
A proposta do G-4, porém, confronta-se com fortes resistências. A China e os EUA uniram-se contra qualquer mudança. Em 2006, o Japão deixou o G-4 por não concor¬dar com o curso das negociações. O México e a Argentina juntaram-se contra o Brasil, receosos de que o pais assuma um papel privilegiado na América Latina.
RIQUEZAS DIVERSAS
É interessante notar como os países do G-20 são diferentes entre si. Por exemplo, observe o índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Esse índice combina indicadores de renda, saúde e educação. Ele varia de O aí. Quanto mais perto de l, melhor. Repare que o Brasil, nesse ponto, não está muito bem colocado em relação a seus parceiros, ficando à frente apenas da África do Sul, China, índia, Indonésia e Turquia. Com relação à população, o bloco conta com gigantes como índia e China, ao lado de Austrália, com apenas 21 milhões de habitantes (o dobro da cidade de São Paulo). Quando for observar o PIB, não se esqueça de que está em bilhões. O dos EUA, portanto, ultrapassa os 13 trilhões de dólares.
OUTROS GRUPOS
G-7 (Grupo dos 7) - EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, Itália, França e Canadá
G-B - Todos 05 países do G-7 mais a Federação Russa
G-8 *5 - Todos os países do G-B mais cinco grandes emergentes, que são: Brasil, México,
índia, África do Sul e China
G-4- Brasil, Alemanha, Japão e índia
BRIC - Brasil, Federação Russa, índia e China
UMA SIGLA QUE QUER MUDAR A ORDEM GLOBAL

Por Murilo Ramos
Em 2001, o economista do banco Gold¬man Sachs Jim 0'Neíll criou a sigla Bric, com as iniciais de Brasil, Rússia, índia e China. 0'Neíll quis chá mar a atenç3o para um grupo de países cujo potencial econômico deixa ria as sete nações mais ricas do planeta para trás em 2050. Oito anos depois, o amontoado de letras deixou de ser uma ficção de relatórios econômicos para ganhar forma e con¬teúdo políticos. Na semana passada, os Brícs fizeram sua primeira reunião oficial. Começaram a esboçar linhas de atuação em fóruns internacionais e na discussão de temas sensíveis em tempos de turbulência financeira. Sem muita modéstia e com uma imensa confiança no papel que o futuro lhes reserva, pro¬põem uma nova ordem global, em que o papel do governo dos Estados Unidos seja reduzido-e odeies aumentado. Na avaliação do presidente russo, Dmitri Medvedev, a cidade que abrigou o encon¬tro dos Brics, Ecaterimbrugo, se tornou o "epicentro do mundo". (...)
(...) A reunião (...) não produziu fru¬tos visíveis, além de estabelecer o pró¬ximo encontro do grupo para o ano que vem no Brasil. Nem era preciso. Os quatro países têm um lugar importan¬te no planeta de hoje pelo que são e, também, pelo que fazem em meio ao colapso da economia mundial. Concen¬tram 40% da população mundial, 28% do território e quase 25% das riquezas de todo o globo. (...)

Época, 22/6/2009
Saiba mais: Atualidades vestibular – editora Abril

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