sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O campo à frente dos negócios

O setor agrícola é o que mais cresce no país, mas sua atividade febril gera riqueza e ao mesmo tempo ameaça o meio ambiente

Componente importante do Produ¬to Interno Bruto (PIB) brasileiro, o agronegócio brasileiro participa com 25,11% (dados de 2007) do total de riquezas geradas pelo país. A maior parte vem da agricultura, com 17,85%, segui¬da pela pecuária (7,26%). No passado, esse número já foi maior (em 2003, por exemplo, chegou a 28,79%), mas em 2007 começou a dar sinais de recuperação. O agronegócio vai além do que entende¬mos por agricultura ou pecuária. Seu crescimento não se restringe à produção, ele abarca todas as atividades ligadas ao cultivo, transporte e comércio dos produtos agrícolas. Ou seja, o negócio não está apenas dentro da porteira da fazenda, mas envolve também o trajeto do produto até chegar às feiras livres.
De 2006 para 2007, o crescimento do setor agropecuário chegou a 5,3%, ou seja, cresceu mais do que a indústria (4,9%) e a parte de serviços (4,7%). Foi o setor de maior atividade económica no ano passado. A lavoura ajudou a empurrar esse índice para cima, especialmente graças ao trigo, ao algodão, ao milho, à cana-de-açúcar e à soja. Esses números deram ao Brasil, nos últimos anos, o título de maior produtor mundial de vários itens da pauta agrícola: suco de laranja, açúcar, café. Também somos o principal exportador de etanol, tabaco, soja, carne bovina e suína. Só de suco de laranja o país é dono de 82% do mercado global. O investimento em tecnologia e as con¬dições favoráveis do clima têm sido ferramentas importantes para o aumento da produtividade e, consequentemente, da competitividade brasileira no setor agrí¬cola. Os números confirmam o avanço.

Riqueza gera. riqueza
Nos últimos dez anos, a safra agrícola dobrou de tamanho. No período 2007/2008, a previsão c que supere os 142 milhões de toneladas de grãos, um volume recorde na história do país. As mudanças são tão grandes que o Brasil já é um dos principais mercados de aviões pulverizadores de lavou¬ras no planeta. Para ter uma ideia do avanço da atividade económica, em 1997 o pais representava apenas 0,01% das exportações mundiais de milho. Hoje detém 9,4%. Com a carne suína ocorreu o mesmo.
No mesmo período, a participação do setor agrícola no total de exportações saltou de 2,82% para 14,17%. Isso reper¬cutiu favoravelmente na balança comer¬cial brasileira. Apenas em operações no setor de agronegócio o Brasil registra superavit (diferença entre o que se ex¬porta e o que é importado), e em 2007 esse número foi de quase 50 bilhões de dólares, segundo dados do Ministério da Agricultura. O bom resultado não se deve apenas ao preço em alta das principais commodities que o país exporta, mas também ao aumento do consumo interno. Os produtores estão otimistas com a atual fase. Tanto que as vendas de fertilizantes no Brasil cresceram 17,9% no primeiro trimestre de 2008, na comparação com igual período no ano passado.

Super-safra
A notícia de um recorde nunca antes visto na produção agrícola brasileira vem no contrapé da anunciada escassez mundial de alimentos e traz alívio às autoridades económicas, ao coincidir com uma época de preocupação, refletida nos índices de inflação. A elevação do preço dos alimentos básicos, como arroz e feijão, tem dificultado o cumprimento da meta de inflação anunciada pelo governo, o que colocou o Banco Central em alerta. A pressão inflacionária não acontece só no Brasil, já que o aumento dos preços é generalizado. A diferença é que, por aqui, a supersafra pode ajudar a arrefecer a alta do custo de vida.
Além disso, a dificuldade de grandes produtores de garantir safras sintoniza¬das com o aumento da demanda provoca insegurança global. Por esses motivos, a pressão para o aumento de produti¬vidade é cada vez maior. Sem contar, é claro, com outro ingrediente importan-te numa luta entre os grandes produ¬tores mundiais de alimentos. Nos úl¬timos tempos tem crescido a pressão internacional con¬tra o Brasil devido ao aumento da
área plantada de cana-de-açúcar para a obtenção do etanol. O país vem sendo apontado por alguns organismos internacionais e por países produtores de alimentos como um dos responsáveis pela escassez de comida. Para especialistas, o grande risco é que o Brasil pegue carona em seu eta¬nol e outros tipos de biocombustfvel na crise do petróleo e se torne um campo de monocultura. Dados do IBGE in¬dicam que em 2008 a área colhida da c anã-de-açúcar deverá aumentar 6,4% na comparação com 2007, quando foram colhidos 6,7 milhões de hectares.
A grande questão continua sendo como garantir a expansão da economia e preservar o meio ambiente

Riscos ambientais
A possibilidade de a monocultura ex¬pandir-se ainda mais nos campos brasilei¬ros não é a única preocupação. O avanço da fronteira agrícola, especialmente em direção à Amazónia, também vem dei¬xando a comunidade internacional de prontidão. Dados do IBGE mostram que 47% do algodão, 39% da soja e 36% da carne bovina produzidos no Brasil saem da Amazónia Legal. Essa área, definida pelo governo, corresponde à totalidade dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, além de parte do Maranhão e cinco municípios de Goiás, num total de 5.217.423 quilómetros quadrados, ou cerca de 59% do território brasileiro. Por volta de 80% dessa área é formada por florestas. O Ministério da Agricultura questiona os dados. No caso do rebanho bovino, a estimativa do ministério é que a ocupação da área seja de 27%.
O Ministério do Meio Ambiente tem tentado colocar ordem na atividade dos produtores rurais, especialmente dos pe¬cuaristas, acusados de derrubar florestas para ampliar as pastagens. Com a posse do novo ministro, Carlos Mine, que desde maio substitui Marina Silva no cargo, o clima voltou a esquentar entre o ministério e o go¬vernador de Mato Grosso, Blairo Maggí, um dos maiores produtores de soja do mundo. Mine prometeu ser mais rigoroso na fiscali¬zação para coibir a derrubada das florestas, especialmente em Mato Grosso.
De acordo com dados do Instituto Na¬cional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estado liderou o desmatamento eni abril de 2008. A saída de Marina Silva, dona de grande credibilidade fora do Brasil, agitou as discussões internacionais so¬bre o futuro da Amazónia e reacendeu uma velha discussão: a quem pertence a Amazónia? Quem deve tomar conta da flo¬resta? O governo ou estrangeiros que têm comprado terras na região amazónica? A grande questão continua sendo conciliar a expansão da atividade económica, neces¬sária ao desenvolvimento nacional, com a preservação do meio ambiente.
Riscos ao desenvolvimento
Não são apenas as florestas que sentem os reflexos do crescimento da atividade agropecuária no Brasil. O aumento da mecanização no campo há décadas tem empurrado a população do campo para as cidades. Desde 2003, a produção e a comercialização de trato rés e outros tipos de maquinado não param de crescer. A venda de máquinas agrícolas no país é um termómetro não só do crescimento da área plantada como da diminuição do empre¬go de mao-de-obra. Em 1970, segundo os dados do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pela primei¬ra vez se registrou na história do país mais pessoas nas cidades do que no campo.
De acordo com o último censo, realizado em 2000, pouco mais de 80% dos brasilei¬ros viviam em áreas urbanas. Sem trabalho nem formação adequada, essas pessoas, em muitos casos, se amontoam em favelas nas grandes cidades. Só na região metro¬politana de São Paulo, estima-se que 10% da população viva em favelas - 2 milhões. O Censo de 2000 mostrou que 75% dos movimentos migratórios (ocorridos nos cinco anos anteriores) tinham como origem e destino as áreas urbanas, 12,4% foram do campo para as cidades, 7,7% foram urbano-rurais e 4,8% originaram-se e destinaram-se a áreas rurais. Ainda de acordo com a pesquisa, quase 15% dos migrantes de todo o Brasil não possuíam instrução na época e sino fundamental. Ou seja, tinham menos de sete anos de estudo. Além do inchaço das periferias, o excesso de desempregados no meio rural tem colocado fermento nos conflitos no campo.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) intensificou em 2008 as ocupações e os protestos, principalmen¬te contra grandes empresas brasileiras, em especial a Vale, e multinacionais. Por exemplo, a Monsanto e a Sygenta. Atu-almente há no Brasil 140 mil famílias do MST acampadas e 4 milhões de famílias de seni-terra cadastradas no Plano Nacio¬nal de Reforma Agrária. Ao todo, 1,6% de proprietários controla 46,78% das terras do pais. Tese de doutorado feita pelo pro¬fessor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) José Marangoni concluiu que o setor agrícola paulista demitiu mais de 700 mil trabalhadores nas últimas três décadas. Entre as principais causas, estão a mecanização das lavouras, a concentração de terras e o aumento de alguns cultivos. De acordo com o levantamento, enquanto o número de trabalhadores entre 1971 e 2004 caiu cerca de 60%, a venda de máquinas agrícolas triplicou de 1970 a 2000.
Os conflitos no campo são apenas mais um dos problemas que o Brasil tem enfren¬tado para aumentar os ganhos no agrone-gócio. Um estudo da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) mostrou que o Brasil deverá ter prejuízos de 3,88 bilhões de dólares em 2008 em razão do sistema precário de transporte da safra. A perda comprometerá 7,8% da receita estimada para o setor agrícola brasileiro. Além das dificuldades com a infra-estru-tura do país, que complicam e encarecem o escoamento da produção, os produtores brasileiros esbarram nas barreiras comer¬ciais dos importadores, como as sobretaxas (barreiras tarifárias ou não tarifárias), as cotas de importação e o controle de preços. As disputas são negociadas na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Jogo internacional

Desde 2001 está em andamento no âmbito da OMC a Rodada Doha, que tem
como meta reduzir os subsídios agrícolas e colocar limites nas tarifas de importação. Inicialmente, aprevisão era que as negocia¬ções fossem concluídas em 2006, mas até agora os países não chegaram aum acordo. O principal impasse é quanto aos subsídios agrícolas. As nações da União Europeia, em especial a França, não admitem abrir mão da ajuda financeira que dão aos agriculto¬res. Para o governo francês, garantir preços mínimos para a produção, por exemplo, é uma forma de proteçào social.
A OMC é sistematicamente acíonada pelos governos que se sentem prejudi¬cados no comércio global. Em junho de 2008, o Brasil ganhou uma briga contra os Estados Unidos que já durava cinco anos. Os norte-americanos eram acusa¬dos de dar subsídios aos exportadores de algodão, tornando a competição desigual. Segundo o órgão máximo do comércio mundial, o governo dos EUA não aplicou uma decisão de 2005, da qual os juizes da OMC solicitaram aos americanos que reformassem os subsídios. Na época, o Brasil foi liberado para impor sanções de 4 bilhões de dólares. Como os EUA se comprometeram a eliminar os subsídios, o país optou por não exercer seu direito. Segundo o informe dos juizes da OMC, "o programa de garantia de crédito à exportação constitui um subsídio à ex¬portação", o que é vetado pelas regras do organismo internacional. Como se vê, o agronegócio é um jogo intrincado. Não depende apenas das condições do tempo. Depende de políticas internas e de decisões internacionais.
PIB DO AGRONEGÓCIO CRESCE 2,4% NO 1° TRIMESTRE

O Produto Interno Bruto (PIB) do País cresceu 5,8% no primeiro trimestre de 2008 ante igual período do ano passa¬do, divulgou hoje o instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (fBGE). Na comparação com o quarto trimestre de 2007, houve expansão de 0,7% no PIB. Neste caso, as expectativas varia¬vam de 0,50% a 1,20%, com mediana de 0,69%. Em 12 meses até março de 2008, o PIB cresceu 5,8%. Em valores correntes, o PIB do primeiro trimestre somou RS 665,5 bilhões.
O PIB da agropecuária aumentou 2,4% ante o primeiro trimestre de 2007; caiu 3,5% comparativamente ao quarto trimestre do ano passado e aumentou 4,9% em 12 meses.
Já o PIB da indústria cresceu 6,9% no primeiro trimestre de 2008 ante igual período do ano passado. Na comparação com o quarto trimestre do ano passado, o PIB industrial aumentou l,6%e em 12 meses teve alta de 5,7%.
O PIB dos serviços registrou variação de 5,0% no primeiro trimestre ante íguaf período de 2007; aumento de 1,0% ante o quarto trimestre do ano passado e de 4,9% em 12 meses.
Na nova série de contas nacionais do IBGE, cujas divulgações tiveram início no ano passado, a agropecuária tem participaçãode 5,6% no PIB; a indústria, de 27,7%; e os serviços, de 66,7%.

Por Paula Pacheco

Para saber mais leia: Atualidades vestibular – editora Abril

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